M - P&B


A vassoura cabia-lhe nas duas mãos. Varreu a casa inteira, tirou teias de aranha... Nenhuma formiga. Talvez, se varresse o quintal, talvez encontrasse alguma minhoca. Estava cansada, muito cansada. Irritada como uma dona-de-casa que no solavanco deixa cair os ovos.


Resolveu sair para a avenida José Candido da Silveira. Maquiladíssima, lembrou-se da mãe: "Você não está na idade de usar Chanel Nº 5". Saía daquele jeito, durante o dia, mesmo assim. Pensava em se tatuar para eternizar aquela aparência, o processo diante do espelho todo dia era tedioso demais.

Mal sabia Daniela, mas eu sei, porque mando na história, que o preto-e-branco de pêlos-e-peles, respectivamente, era muito mais bonito. Combinava com os olhos negros. O conjunto todo, enfim, era impecável. Ah, como eu adorava aquela franjinha!

Ela conduzia a bicicleta pelo guidom Casmurro na estradinha de alvenaria, não sabia pedalar. No meio do caminho me encontrou – yupi, apareci na história! – coachxando como naquela poesia muderna, quero desprezar onomatopéias. Não quis me beijar, não queria saber de beijos.

Sem mais delongas porque Danielas são muitas – não quero ofendê-las.

Sozinho, à noite, caminho comigo mesmo pelas ruas. Gorjeio a canção de um filme musical admirado com os pingos iluminados. Primeiro duas gotas, depois a tempestade. Parece que caem mais devagar...

Antigamente um beijo na chuva parecia mais possível.

Hoje há apenas a possibilidade solitária da canção.