O Wolverine


Era um show como qualquer outro que vira-e-mexe acontece no Centro. Montam um palco na Praça Tiradentes, colocam umas bandas bem bacanas e o lugar fica lotado. Aí o negócio é ficar lá assistindo às apresentações e dançando e procurando alguém pra flertar, e pra render a gente constantemente desce a Rua Direita e vai ao Barroco comprar mais cerveja.

Eu e ele, a gente se cruzou numa dessas de subir e descer aquela ladeira. Está me olhando, é bonito. É bonito? Quando eu fico bêbado muita gente parece bonita. Vou ficar com ele. Chego, cumprimento, não me lembro muito da conversa, no flash seguinte estou no carro dele, então na casa dele, estamos tirando as roupas e que corpaço que o cara tem. Fazia tempo que eu não via homem com tribal tatuado. O desenho começava na escápula oposta ao coração, pegava o ombro e descia um pouco pelo braço, tinha algumas partes esfumaçadas, muito bonito. Eu ficava analisando entre uma gozada e outra. Mamilos pequenos, poucos pêlos descendo até a linha da cintura, nada depilado nem tosado. Escapulário dourado, não gosto muito de dourado, mas era legal. Destacava as definições do corpo trabalhado, clavícula, pescoço, nuca.

– Namora comigo? – ele propôs.

Dei risada.

Falei alguma coisa do rosto dele, olhos e barba e cabelos pretos em contraste com a pele clara, leve curvatura onde se separam as sobrancelhas espessas, sobrancelhas bem pretas também, fiquei tateando com a ponta do meu indicador, narizão afilado, que narizão. Ele me contou de um acidente de moto, pegou meu dedo para apalpá-lo no maxilar, no nariz, nas maçãs do rosto, era metal reconstituindo tudo. Aço cirúrgico. Quase o Wolverine, comentei, pensei, não lembro. Eu bem que podia ser o Magneto.

Amanheceu e eu precisava ir embora. “Namora comigo”, ele tornou a pedir. Outra vez dei risada, não acreditei. Na hora da despedida ele não quis me deixar, ficava me agarrando, puxando, beijando, não vai, não vai, fazia cara de arrasado.

Mentira. Foi só um tchau, um “A gente combina de se encontrar mais tarde” sem muito compromisso. Não deu em mais nada.