Suruba voadora


Eu voava muito, muito alto. E quando batia na fiação dos postes, ficava surpreso por não ser eletrocutado. Choque, só da colisão. De vez em quando minha orelha agarrava num dos fios, mas soltava lentamente enquanto meu corpo esticava entre ela e a mão que segurava o guarda-chuva. Um homem elástico voador. Eu conferia o lóbulo e, que alívio, nem a tarraxa do brinco havia sido levada.

Se o poder de vôo estava no guarda-chuva? Feito Mary Poppins? Não sei. Acho que não. Lembro de já ter levitado sem guarda-chuva. A força da levitação vem do interior, da leveza do corpo. Fico tão leve que não sinto quando os pés desencostam do chão, leve como um astronauta na lua.

O guarda-chuva só servia para apontar o caminho. Ah, sim, também para me proteger dos conhecidos. Pensava ufa, ninguém me viu. Porque até planar eu planava com a minha leveza. Planava na avenida Silviano Brandão – a imprecisão dava frio no estômago – e pousava sobre os carros para tomar impulso. Estava pertinho de casa, a minha casa de frente pras montanhas.

O louro, pintor, e o moreno, músico, contemplavam a vista. Os dois me esperavam sob a chuva, o rosto pra cima, deixando molhar. Tiramos as roupas. Havia pessoas em volta, mas quem ligaria pra elas? Talvez uma senhora tenha se escandalizado.

Abri o guarda-chuva, nem um pouco para nos proteger da chuva, e Fly me to the moon. O escritor, o pintor e o músico levitavam em êxtase.

– A música vem por meio de mim, de um lugar desconhecido – dizia o músico.

– As montanhas também – concordava o pintor.

Numa leveza que ninguém sabia de onde.