Edifício Vida de Linhares


Eu estou ali com uns desconhecidos. Não sei se acompanhado deles. A imagem ainda é meio turva, vai clareando aos poucos. Paredes em tons pastéis. Tudo em tom pastel. Risadas ao fundo, o volume aumenta gradativamente. É noite de comemoração coletiva. Há festas dos andares mais baixos até a cobertura. Uma algazarra. Estou subindo no elevador com mais três, quatro pessoas. Homens? Mulheres? Mais novos? Velhos? A porta abre e por uma sacanagem qualquer sou obrigado a descer. É o andar da vizinha mal-amada, com toda a maldade do eufemismo mal-amada. Ela reclama do barulho. Não tenho nada a ver com isso. Pego as escadas pro topo, a festa da cobertura. É pra lá que eu vou. “Meu pai resolve isso aí”, digo em voz alta pros que ficaram no elevador e acham que devo me entender com a tal rabugenta. Então enxergo o meu pai, que desceu do elevador comigo, ficando no andar tenebroso. Ele coça o alto da orelha direita, é sempre assim quando se vê em maus lençóis. Continuo subindo, a princípio devagar porque sou freado por um sentimento de culpa. Será justo que tudo pese nas costas do meu pai? Hum. Chegarei ao topo? Lembro dos jardins do edifício. Eu e minha amiga passamos por lá antes de subir. Trevos de quatro folhas abundavam no canteiro como a felicidade que nos invadia o espírito. Eu namorava há pouco menos de um mês; ela também. Tempos dourados de qualquer namoro saudável. Mas nenhum dos dois conseguia arrancar um trevo com a raiz. Ah, como eu queria pegar um pequeno vaso e cultivar o matinho da sorte dentro do apartamento mais alto. Mas em que andar? No fim das contas, eu moro nesse edifício? O que diabos estou fazendo aqui? Tudo tão turvo, tão turvo. Os namoros acabaram. Talvez o edifício desabe.