Beija-mim

Agora são roupas de frio esquentadas por corpos quentes. Você está sobre mim, seu tronco elevado pelos braços, dois pillares ladeando o meu tórax. Posição incitante, chega de olhares, sorrisos, mergulha logo. Assim, estava demorando pra gente se beijar assim, vamos nos tatear feito gatos por territórios ainda não descobertos. É curva de sola do pé subindo e descendo no alisar das pernas alheias, são mãos de um penetrando nas mangas do outro para sondar os pêlos do braço. Os beijos só cessam quando você desce a me lamber o queixo, lambida quente que se prolonga pelo pescoço até alcançar a orelha, saliva de aroma que excita, sussurros tão próximos que provocam contorções. Você volta com a barba de três dias, barba de Caio, volta arranhando e torna a cair de boca na minha boca. Viro o jogo. Ficou surpreso? Estou por cima, entrelaço nossas mãos, quero deixas só pra mim, amarrar seus pulsos com cordas imaginárias nas grades da cama, descer alisando o seu corpo, morder as suas laterais, te impedir de largar as barras com 1 olhar + 2 estalos da língua no céu da boca, sentar no seu colo e passar o polegar na sua sobrancelha e te ver se achando o dono da situação, o que me faz morder o lábio inferior para sufocar um prazer ainda mais descarado. Você pega na minha cintura e eu me curvo para te beijar, puxo os seus lábios com os meus dentes, há um cuidado natural com a pressão, não machuca, depois mais beijo, meto com tudo a minha língua numa das suas narinas...

– Que maluquice é essa?

Caio pro lado às gargalhadas. Você diz que a sensação é horrível, engasgo nasal, mas também dá risada. Puxa de volta o meu corpo sobre o seu, tento manter um membro em cima do outro, quanto mais forte melhor, bem pressionados, mas acabam pluf, cada um prum lado, sempre acabam pluf. Você tenta colocar a mão dentro da minha calça, puxar a blusa lá de dentro, eu digo não, ainda não é a hora. Embrenho os meus joelhos entre as suas pernas, quero-as abertas, quero que me abrace com elas. Inicio o fechar de olhos para que você feche os seus. Nada como admirar esse prazer safado, a sua cabeça no vaivém quase batendo na grade, essa boca entreaberta, só os dentes superiores à mostra...

Somos interrompidos pelo toque do meu celular. Eu não atenderia se não quisesse a situação, "alô... sério?... estou indo praí".

– Problema urgente, preciso ir.

– Jura?

Simulo compaixão, até que foi um "Jura?" merecedor. Ajeito o meu cabelo, olho para você no reflexo do mesmo espelho:

– É sério.

Trocamos os últimos beijos, pressa, sorrisos, tchaus, você fecha a porta, comemoro o meu segundo maior prazer, minha castidade, comemoro mais ainda a incompletude da sua vontade, prazer número um.

Desabilito a função soneca, você não foi do tipo insistente, mas não demora muito, eu sei, liga pra mim e pergunta:

– E aí? Resolveu o problema urgente?

M - P&B


A vassoura cabia-lhe nas duas mãos. Varreu a casa inteira, tirou teias de aranha... Nenhuma formiga. Talvez, se varresse o quintal, talvez encontrasse alguma minhoca. Estava cansada, muito cansada. Irritada como uma dona-de-casa que no solavanco deixa cair os ovos.

Resolveu sair para a Av. José Candido da Silveira. Maquiladíssima, lebrou-se da mãe: "Você não está na idade de usar Chanel Nº 5". Saía daquele jeito, durante o dia, mesmo assim. Pensava em se tatuar para eternizar aquela aparência, o processo diante do espelho todo dia era tedioso demais.

Mal sabia Daniela, mas eu sei, porque mando na história, que o preto-e-branco de pêlos-e-peles, respectivamente, era muito mais bonito. Combinavam com os olhos negros. O conjunto todo, enfim, era impecável. Ah, como eu adorava aquela franjinha!

Ela conduzia a bicicleta pelo guidom Casmurro na estradinha de alvenaria, não sabia pedalar. No meio do caminho me encontrou – yupi, apareci na história! – coachxando como naquela poesia muderna, quero desprezar onomatopéias. Não quis me beijar, não queria saber de beijos.

Sem mais delongas porque Danielas são muitas – não quero ofendê-las.

Sozinho, à noite, caminho comigo mesmo pelas ruas. Gorjeio a canção de um filme musical admirado com os pingos iluminados. Primeiro duas gotas, depois a tempestade. Parece que caem mais devagar...

Antigamente um beijo na chuva parecia mais possível.

Hoje há apenas a possibilidade solitária da canção.

Bebed'ouro

Essa vespa que passa, não passarinho, passa palhaça

Só beija-flor de plástico

As outras, despedaça

Mentecapitu

Os peritos estavam certos quando analisaram a cena do crime? A família não queria acreditar em suicídio. Aliás, não era possível que Capitu fosse parar sozinha naquele cenário. Esse tempo todo fazendo-se de pudica, a matriarca diria com desprezo, caso as circunstâncias fossem outras, após estalar continuamente a língua no céu da boca.

Mas o corpo morto, ensangüentado...

Se Capitu ressuscitasse por um instante, revelaria que na verdade fora vítima de assassinato. Eu tentei não erguer o punho, tentei não explodir a minha cabeça, mas eles foram mais fortes do que eu, fundamentaria.

Esteve aterrorizada com a facilidade com que a deixaram imóvel na cama redonda do motel. Mantiveram o revólver em sua mão, aproximando lentamente o cano negro do ouvido. Os olhos, tensos em movimentos pendulares, vez por outra se encaravam arregalados pelo reflexo do espelho no teto, como se implorassem por socorro.

Mas não adiantava oferecer resistência. Não mais. Era o fim.

Pá.

Nenhum especialista alegaria que ela lutou contra a força dos pensamentos até o último suspiro.

Dois eles

Luana falando – a partir do próximo parágrafo, não mais na terceira pessoa.

Há cinco anos e meio, aproximadamente, eu conheci o Lauro. Aproximadamente porque não quero fazer conta. Se quisesse, diria até a hora. Sou ótima com números, porém uma preguiçosa;
péssima com nomes – não sei se era mesmo “Lauro”.

Repito: há cinco anos e meio, aproximadamente, eu conheci o Lauro. Vou chamá-lo assim, Lauro, mesmo sem ter certeza. O nome não importa, palavras não importam. Estou mais interessada nos olhos, mas depois reflito sobre eles.

Lauro era vendedor, consultor de vendas, algo assim. Trabalhava numa loja de telefones. Alto – na adolescência homens altos eram o meu forte. Bonito, era bonito. Flertei com ele, não sei se flertou comigo. Usava óculos que ocultavam o que descubro hoje. Ou será que não usava? Sou mesmo ótima com números. Lembro que se parecia com X, “só que de olhos verdes”, comentei na época. “Bonito demais pra mim”, devo ter acrescentado.

A minha descoberta, hoje, veio num sonho. Como dormi com a tevê ligada, o plano onírico se fundia com o recordista de bilheteria na tela. Eu era como um boto cor-de-rosa naquele oceano doce, seguia a todo o vapor à frente do maior transatlântico do mundo.

Dois erres: Negro e Solimões.

Lá do alto, Lauro se jogava, mergulhava em mim, engravidava comigo. “Durante cinco anos e meio estivemos assim”, barrigudo ele me dizia.

Acordo pensando em Marcello. O meu amor, sim, era uma história real.

Não sei se leal.

Lauro era viagem, provável invenção de quem dorme antes do naufrágio.

Dois eles...

Nenhum é mar de verdade.

Gramática
Burocrática


Oração subordinada substantiva inseticida?
Reduzida de quê?
Onde eu enfio?
Não, não.
O "u" não tem asscento.
Não confunda oxítona com monossírlaba!
Vou te dar o chapéu de burro.
Me dê, dá-me, da má!
Paressçe o capuz da... KKKKKKKKKK
Pára de rir! Mamãe e papai vão ficar fulos com a gente.

AHHH! PREFIRO IR NÚ NO BANHEIRO!

Meu romance


À venda nas principais livrarias da Savassi.